Os medicamentos para perda de peso GLP-1 estão entre os avanços biotecnológicos mais importantes da última década, mas psicólogos clínicos começam a enxergar um lado preocupante: eles podem funcionar como gatilho para transtornos alimentares. Um estudo publicado no JAMA Psychiatry estima que a incidência global de anorexia nervosa e bulimia nervosa cresceu 71% entre 1990 e 2023, chegando a cerca de 18,1 milhões de pessoas com um dos dois transtornos naquele ano. A projeção dos pesquisadores é de 21,8 milhões de casos até 2050.
A pesquisa, liderada por Ruhai Bai, do Hospital Infantil de Nanjing, cruzou dados de 204 países e territórios. Os autores não investigaram as causas do aumento, mas especialistas apontam fatores como a exposição a conteúdos de "thinspiration" nas redes sociais, o isolamento da pandemia de covid-19 e a pressão estética. Em um estudo de pequena escala, a psicóloga Cheri Levinson, da Universidade de Louisville, constatou que 30% das pessoas com transtornos alimentares já haviam usado GLP-1, e que 10% aparentemente os utilizaram de forma indevida. Segundo ela, o número real pode ser maior.
Especialistas como Cynthia Bulik, da Universidade da Carolina do Norte, temem que os medicamentos acelerem a perda de peso em pacientes com anorexia, levando a quadros mais graves e difíceis de reverter. Diretrizes clínicas recém-publicadas recomendam que médicos rastreiem transtornos alimentares antes de prescrever esses remédios, além de maior orientação aos pacientes e monitoramento contínuo. Como ainda não há dados sólidos sobre a evolução desses casos após 2023, a comunidade científica pede cautela e mais pesquisas.

